A Fome - O Remédio


        Nos últimos anos, uma sucessão de fatos transformou o Brasil e sua política, nosso país que com muita dificuldade havia saído do mapa da fome em 2014, com uma taxa de 1,9% da população em situação de insegurança alimentar, em média 3,9 milhões de pessoas, voltou a ele logo em 2019, antes da pandemia, com 7,3% da população passando fome, em média 15,4 milhões, e esse número mais que dobrou durante a pandemia de COVID-19. Daniel Balaban, diretor do programa de alimentos da ONU no Brasil, em avaliação dada ao Jornal Nacional em 07/06/2022 fala sobre a fome piorar bem antes do colapso global:

            "A pandemia não é a maior culpada pelo Brasil estar de volta a esses números extremamente altos de pessoas com fome. O Brasil é um dos países mais desiguais do mundo. Essa população precisa do apoio de políticas públicas para ser incluída na cidadania, incluída na sociedade. Fazer com que as pessoas possam produzir, possam participar, colocar pequenos negócios, possam ter hoje uma formação educacional diferenciada, uma formação profissional diferenciada".

 

        Poderíamos fazer um comparativo aqui com a pior época em que o Brasil mais passou fome, mas segundo dados levantados nós passamos por esse momento recentemente, em 2021, com 33,1 milhões de pessoas passando fome, e 125 milhões ao total com insegurança alimentar, que significa que, apesar de não passar fome diretamente, não tinham todas as refeições diárias, e/ou não tinham acesso a todos os nutrientes necessários nas suas refeições. A fome foi nacionalizada nos últimos 6 anos, em São Paulo, 6,8 milhões de pessoas passam por situação de insegurança alimentar, e você encontra números altos em todo o país.

        Os Yanomami

        No dia 20 de janeiro a agência Sumaúma veiculou que até 570 crianças indígenas com idades entre 0 e 5 anos haviam morrido de doenças que poderiam ser evitadas. A lista de crimes contra esse povo originário é imensa, nos últimos anos eles foram completamente desassistidos e ignorados pelo governo brasileiro, a saúde pública e gratuita que deveria chegar a todos inclusive a eles foi cortada, o aumento do garimpo e a facilitação da invasão de terras demarcadas por parte do governo também facilitou que muitos fossem mortos, a pandemia de COVID-19 foi avassaladora e a crise sanitária foi imprescindível. Não dá para se ter noção do sofá da nossa sala de quantos homens, mulheres e crianças indígenas foram mortos, e sabemos claramente, com o aval do governo Federal do então ex-presidente Jair Bolsonaro. Ricardo Salles, então ministro do meio ambiente, declarou diversas vezes que deixaria "passar a boiada", e está sendo investigado por envolvimento com garimpeiros que invadiram terras demarcadas para desmatar e matar. Por esses e outros motivos o governo tem sido investigado pelo crime de genocídio.

        O que é genocídio?

        A Lei 2.889/1956 diz que o genocídio é caracterizado pela “intenção de destruir, no todo ou em parte, grupo nacional, étnico, racial ou religioso”, por meio de atos como: “matar membros do grupo; causar lesão grave à integridade física ou mental de membros do grupo; submeter intencionalmente o grupo a condições de existência capazes de ocasionar-lhe a destruição física total ou parcial; adotar medidas destinadas a impedir os nascimentos no seio do grupo; efetuar a transferência forçada de crianças do grupo para outro grupo”. A definição segue a legislação internacional. (Fonte: https://www.socioambiental.org/noticias-socioambientais/o-que-voce-precisa-saber-para-entender-crise-na-terra-indigena-yanomami)

        Charqueadas, a pandemia e a fome

        Em nossa cidade, a pandemia foi muito negligenciada, no primeiro ano de ainda recebemos uma atenção "especial" do governo do estado que esteve aqui entregando 10 leitos de UTI. Enfrentamos duas coisas: a fome e a doença. 
        Falo por mim mesmo, no fim de 2019 fiquei desempregado, sempre trabalhei na área de comércio, como garçom, atendente e caixa, e o ano todo de 2020 procurei emprego e não achei, o governo federal me negou auxílio emergencial sem motivo específico algum, e eu passei fome e dificuldade para lidar com despesas básicas como contas, gás, remédio e comida.

        A marginalização do comércio

        Todo mundo tem direito a trabalhar, entretanto, esse direito foi tirado de quem trabalhava com comércio, principalmente restaurantes, que era minha área, e estava mais do que correto fazer o fechamento dos espaços públicos e privados para evitar aglomerações e consequentemente a contaminação. Mas ninguém, repito, ninguém pensou em como isso afetaria esses trabalhadores, vi deputados da sigla que fiz parte criticar o comércio a pandemia inteira e não dar uma única palavra sobre garçons, caixas e atendentes. Era como se nós nunca tivéssemos existido, como se nossa profissão não fosse relevante. Obviamente eu os critiquei e cobrei isso de todos que pude, toda profissão importa. Fui candidato a prefeito em 2020, ainda desempregado, defendi minhas ideias e consegui meu primeiro emprego do ano no fim de dezembro. Trabalhei 1 mês e tive que ver o meu então chefe chorando por ter que fechar o estabelecimento. Novamente digo: a pandemia é algo sério, o lockdown era necessário, precisávamos evitar a contaminação. Mas novamente, dezenas ou centenas de charqueadenses e milhares de brasileiros que trabalhavam na mesma área que eu estavam à mercê da fome e do desemprego, sem amparo nenhum da prefeitura, do estado ou do governo federal. 

        A volta ao "normal"

        Nada volta ao normal do dia para a noite, e infelizmente nossa cidade sente os danos da pandemia até hoje. O governo federal passado desviou dinheiro da saúde e consequentemente diminuiu os recursos repassados, nossa cidade que viu seu hospital reabrir, hoje vê diversas reclamações sobre mau atendimento, falta de recursos e de amor e carinho, a saúde não é feita na base do grito e do desamparo, novamente citarei os R$ 300.000,00 que conseguimos para a compra do mamógrafo, a abertura do Centro de Imagens é um avanço, mas ainda falta muito para nossa cidade avançar no quesito saúde. Muitas famílias ainda estão em situação de vulnerabilidade, é um momento delicado, que precisa mais do que nunca da atenção dos nossos governantes.

        O remédio

        Políticas públicas, essa é a solução. O que esperamos do novo governo federal é que resolva esses problemas que assolam nosso país, felizmente já foram tomadas medidas, toneladas de alimentos foram enviados e equipes médicas estarão acompanhando os Yanomami a fim de sanar suas necessidades básicas, é bom lembrar que eles estavam aqui centenas de anos antes de nós, e que sempre viveram em harmonia com a natureza, nunca desmataram ou depredaram o meio ambiente, diferente de nós, já que hoje tomamos o seu território, o minimamente humano a se fazer, é lhes dar uma qualidade de vida decente.
        Mas quando falamos em Charqueadas, nosso remédio só poderá vir completamente em 2024, precisamos construir uma força política, renovar para inovar e estar ao lado de gente que sabe o que faz, para colocar nossa cidade nos trilhos novamente.


                                              Crédito da foto: Igor Evangelista/Ministério da Saúde

Comentários

  1. Concordo plenamente! Temos que colocar pessoas que saibam o que estão fazendo e que estejam do lado da população! Um governo verdadeiramente focado em políticas públicas de interesse de quem realmente está na ponta, o cidadão!

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